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terça-feira, 9 de outubro de 2012

Carta aberta

Ainda a propósito deste tema, encontrei hoje um texto que espelha fielmente o que sinto a este respeito.

O texto é longo e vou apenas transcrever algumas passagens que me tocaram mais, mas podem lê-lo na íntegra na casa desta menina:


Carta de uma mulher infértil ao mundo

"(...) Todas estas barreiras para engravidar são físicas ou fisiológicas, não são portanto barreiras psicológicas. As trompas não se bloqueiam porque a mulher está "muito ansiosa" para engravidar. Quando existem anticorpos na mulher que matam o esperma do marido, por exemplo, eles não desaparecem se a mulher relaxar. E um homem também não pode fazer com que o seu esperma se mova mais depressa apenas com uma atitude optimista. (...)
Quando alguém de quem gostamos tem um problema, é natural tentarmos ajudar. Se não houver nada de específico que possamos fazer, tentamos pelo menos dar um conselho. Muitas vezes utilizamos as nossas experiências pessoais ou casos que envolvam outras pessoas que conhecemos: recordas-te de uma amiga que tinha problemas para ficar grávida e que essa amiga conseguiu só porque foi com o marido de férias para uma ilha tropical. Por isso achas que faz sentido sugerir a (...) para meter também férias com o marido…
A(...) aprecia o teu conselho, mas a sugestão não lhe serve de grande coisa, porque o problema tem uma origem física. Pior ainda: a tua sugestão deixa-a mais magoada. Muito provavelmente já outras pessoas lhe disseram isso imensas vezes. Imagina como é frustrante ela ter de ouvir que outros casais engravidaram "magicamente" durante umas férias, simplesmente fazendo amor. Repara que a(...) está no meio de tratamentos de fertilidade. Nestas circunstâncias, fazer amor e conceber um filho não são coisas muito relacionadas uma com a outra. Nem imaginas quanto é difícil estar a tentar conseguir um bebé e quanto é desanimador sentir que no final de cada mês se voltou a falhar.
O teu conselho bem-intencionado é um esforço para transformares um problema extremamente complicado num problema demasiadamente simplificado. Ao simplificares o problema desta maneira, retiras importância ao que ela sente, menosprezando as suas emoções. E ela sente-se obviamente aborrecida e chateada contigo nestas circunstâncias.
A verdade é que não há nada de concreto que possas fazer para a ajudar. A melhor ajuda que podes dar é a tua compreensão e apoio. É mais fácil apoiá-la se souberes como pode ser devastadora a incapacidade de ter um bebé. (...)
Apesar das esperanças que estas técnicas oferecem, são um "osso difícil de roer". Alguns procedimentos de alta tecnologia só existem em certas clínicas e isso pode obrigar a (...) a viajar grandes distâncias. Quando o tratamento está disponível por perto, ela tem de suportar as visitas regulares ao médico, aplicar injecções diariamente, compatibilizar o trabalho e a vida social com esses procedimentos e ainda gastar consideráveis somas de dinheiro. Tudo isto é acompanhado por uma série de exames embaraçosos e muitas vezes dolorosos.
A infertilidade é uma condição médica muito pessoal, que a(...) pode não estar em condições dar a conhecer no emprego ou de partilhar com o seu patrão. Por isso às vezes inventa desculpas cada vez que o tratamento coincide com o horário de trabalho.
Depois de cada esforço médico para engravidar, a(...) tem ainda de aguentar a espera, sempre salpicada por ondas de optimismo e de pessimismo. É uma verdadeira montanha russa emocional. Não sabe se os peitos inchados são um sinal de gravidez ou um efeito secundário dos medicamentos de infertilidade. Se vê uma mancha de sangue na roupa interior, não sabe se é o embrião a implantar-se ou se é o período que está a começar. Se não engravida depois de uma tentativa “in vitro”, pode sentir que o desejo de um bebé morreu mais um pouco.
Ela tenta viver com este tumulto emocional. Se a convidam para uma festa de boas vindas ao bebé de uma amiga, se a convidam para um baptizado, se sabe que uma amiga ou colega está grávida, se um dia lê uma história de um recém nascido abandonado, podes imaginar a angústia e a raiva que ela sente com as injustiças da vida! (...)
Num jantar alguém pergunta há quanto tempo é casada e se já tem filhos. Nestas ocasiões sente vontade de sair a correr, mas não pode. Se ela falar sobre a sua infertilidade é provável que oiça um dos tais conselhos bem intencionados: "Relaxa, não te preocupes, quando menos esperares...", ou ainda "Tens sorte. Eu estou farta dos meus filhos, gostaria de ter a tua liberdade". Estes são comentários típicos que fazem com que ela tenha vontade de esconder-se debaixo da mesa.
Refugiar-se no trabalho e na carreira profissional nem sempre é possível. Ver cada mês que o sonho não se cumpre, pode consumir energias para avançar na carreira. E à volta as outras colegas de trabalho vão ficando todas grávidas."
 
 

domingo, 7 de outubro de 2012

Nós e os outros...

Uma das partes complicadas da infertilidade é a relação do casal com o "resto do mundo". Família, amigos, conhecidos, colegas de trabalho...

Pelo que tenho observado ao longo deste nosso percurso, há basicamente, e em linhas gerais, dois "tipos" de casais inférteis.

Há os que contam a sua história abertamente a toda a gente, partilhando com a comunidade à sua volta os altos e baixos deste duro caminho, e depois há os que optam por preservar mais a sua privacidade mantendo a sua história quase secreta.

Na minha opinião ambas as opções são válidas e acarretam os seus prós e contras.

Por um lado é libertador e menos desgastante não ter que estar constantemente a fingir que está tudo bem, poder partilhar os momentos menos bons com quem sabemos que nos quer bem e que nos pode reconfortar sempre que, mais uma vez, vemos que ainda não foi desta...

Mas por outro lado, quando toda a gente à nossa volta sabe, torna-se quase impossível tentarmos esquecer por um minuto que seja que há algo de errado connosco. Ainda que não seja por mal (e a maioria das vezes sabemos que não é) é inevitável que as outras pessoas estejam constantemente a abordar este assunto. Seja a perguntar se já conseguimos, ou com soluções milagrosas que resultaram com não sei quem, ou ainda com a famosa frase que penso que todas já ouvimos: "A não-sei-quantas também tentou muitos anos e só quando deixou de tentar é que engravidou."

Mas o que é que querem que façamos? Que deixemos de tentar para ver se resulta?! Que não pensemos mais no caso? É difícil se toda a gente nos fala no mesmo (e impossível, mesmo que ninguém fale...)
Eu compreendo que apenas queiram ajudar e compreendo também que é difícil saber o que dizer, mas por vezes é complicado ouvir dezenas de vezes os mesmos "conselhos", fazer um sorriso e dizer "Pois é, pois  é."

No nosso caso optámos inicialmente por não contar a ninguém. Para ser sincera o que queríamos mesmo era fazer uma surpresa às pessoas que nos eram mais chegadas anunciando a gravidez. Pois, mas passou um mês, outro, outro, meio ano, um ano... e tornou-se cada vez mais difícil de contar porque achávamos sempre que aconteceria no mês seguinte.

E assim, fomos ficando cada vez mais isolados, fingindo que estava tudo bem.

Depois, quase por acaso, acabámos por ir contando a algumas pessoas, curiosamente (ou não) a pessoas que não nos eram muito próximas e com quem não lidamos diariamente. Penso que foi uma espécie de mecanismo de defesa pois permitiu-nos partilhar a nossa história mas ao mesmo tempo não ter que lidar diariamente com os tais comentários de que falava.

Agora, desde que começamos a ser seguidos no hospital, fomos quase "obrigados" a contar às pessoas mais próximas, como no trabalho, porque por vezes precisamos de sair para ir a consultas ou exames, e também à família pois caso contrário teríamos que lhes mentir em várias ocasiões e também não queríamos fazer isso.

De modo que, a partir do momento que se tornou do conhecimento geral, temos sentido uma enorme pressão, que conseguíamos evitar quando ninguém sabia. No trabalho, por exemplo, eu conseguia muitas vezes abstrair-me deste problema, principalmente nos dias de maior rebuliço e só voltava a pensar nele quando chegava a casa ao fim do dia e tinha que confirmar os dias do ciclo e planear a medicação do dia seguinte. Tinha ainda a sorte de não haver grávidas nem bebés entre as minhas colegas pelo que era um tema que não era frequentemente abordado.

Agora é quase impossível passar um dia sem que alguma me venha perguntar como estão a correr as coisas ou vir com algum conselho, ou saber como correu com a médica, ou dizer para ter calma que a ansiedade é que não nos deixa engravidar... E eu sei que o fazem com carinho e por um lado estou-lhes grata por isso, mas nunca mais me consegui abstrair como fazia no início e isso faz-me falta.

Por isso é um problema para o qual penso não haver uma resposta clara e absoluta:

"Contar ou não contar, eis a questão!"

E vocês, contaram desde o início?