domingo, 7 de outubro de 2012

Nós e os outros...

Uma das partes complicadas da infertilidade é a relação do casal com o "resto do mundo". Família, amigos, conhecidos, colegas de trabalho...

Pelo que tenho observado ao longo deste nosso percurso, há basicamente, e em linhas gerais, dois "tipos" de casais inférteis.

Há os que contam a sua história abertamente a toda a gente, partilhando com a comunidade à sua volta os altos e baixos deste duro caminho, e depois há os que optam por preservar mais a sua privacidade mantendo a sua história quase secreta.

Na minha opinião ambas as opções são válidas e acarretam os seus prós e contras.

Por um lado é libertador e menos desgastante não ter que estar constantemente a fingir que está tudo bem, poder partilhar os momentos menos bons com quem sabemos que nos quer bem e que nos pode reconfortar sempre que, mais uma vez, vemos que ainda não foi desta...

Mas por outro lado, quando toda a gente à nossa volta sabe, torna-se quase impossível tentarmos esquecer por um minuto que seja que há algo de errado connosco. Ainda que não seja por mal (e a maioria das vezes sabemos que não é) é inevitável que as outras pessoas estejam constantemente a abordar este assunto. Seja a perguntar se já conseguimos, ou com soluções milagrosas que resultaram com não sei quem, ou ainda com a famosa frase que penso que todas já ouvimos: "A não-sei-quantas também tentou muitos anos e só quando deixou de tentar é que engravidou."

Mas o que é que querem que façamos? Que deixemos de tentar para ver se resulta?! Que não pensemos mais no caso? É difícil se toda a gente nos fala no mesmo (e impossível, mesmo que ninguém fale...)
Eu compreendo que apenas queiram ajudar e compreendo também que é difícil saber o que dizer, mas por vezes é complicado ouvir dezenas de vezes os mesmos "conselhos", fazer um sorriso e dizer "Pois é, pois  é."

No nosso caso optámos inicialmente por não contar a ninguém. Para ser sincera o que queríamos mesmo era fazer uma surpresa às pessoas que nos eram mais chegadas anunciando a gravidez. Pois, mas passou um mês, outro, outro, meio ano, um ano... e tornou-se cada vez mais difícil de contar porque achávamos sempre que aconteceria no mês seguinte.

E assim, fomos ficando cada vez mais isolados, fingindo que estava tudo bem.

Depois, quase por acaso, acabámos por ir contando a algumas pessoas, curiosamente (ou não) a pessoas que não nos eram muito próximas e com quem não lidamos diariamente. Penso que foi uma espécie de mecanismo de defesa pois permitiu-nos partilhar a nossa história mas ao mesmo tempo não ter que lidar diariamente com os tais comentários de que falava.

Agora, desde que começamos a ser seguidos no hospital, fomos quase "obrigados" a contar às pessoas mais próximas, como no trabalho, porque por vezes precisamos de sair para ir a consultas ou exames, e também à família pois caso contrário teríamos que lhes mentir em várias ocasiões e também não queríamos fazer isso.

De modo que, a partir do momento que se tornou do conhecimento geral, temos sentido uma enorme pressão, que conseguíamos evitar quando ninguém sabia. No trabalho, por exemplo, eu conseguia muitas vezes abstrair-me deste problema, principalmente nos dias de maior rebuliço e só voltava a pensar nele quando chegava a casa ao fim do dia e tinha que confirmar os dias do ciclo e planear a medicação do dia seguinte. Tinha ainda a sorte de não haver grávidas nem bebés entre as minhas colegas pelo que era um tema que não era frequentemente abordado.

Agora é quase impossível passar um dia sem que alguma me venha perguntar como estão a correr as coisas ou vir com algum conselho, ou saber como correu com a médica, ou dizer para ter calma que a ansiedade é que não nos deixa engravidar... E eu sei que o fazem com carinho e por um lado estou-lhes grata por isso, mas nunca mais me consegui abstrair como fazia no início e isso faz-me falta.

Por isso é um problema para o qual penso não haver uma resposta clara e absoluta:

"Contar ou não contar, eis a questão!"

E vocês, contaram desde o início?


6 comentários:

Nosso Sonho disse...

Olá,
compreendo-te perfeitamente!
Nós inicialmente também só contamos aos nossos pais pq como estavam constantemente a perguntar para qd um neto, então resolvemos partilhar o nosso problema. No entanto, alguns amigos próximos começaram a engravidar e a questionar-nos a toda a hora pq não teríamos filhos e nós justificavamos sempre que ainda queríamos "gozar" mais o casamento, etc... mas acabamos por contar a 2 casais amigos. 1 deles simplesmente ignorou o nosso problema e isso magou-nos um pouco (arrependo-me e de que maneira) e o outro tem sido impecável! Não estão a toda a hora a perguntar, enviam sms de vez em qd e perguntam apenas como está o desenvolvimento das coisas de tempo a tempo. Dão-nos espaço! No emprego apenas contei à chefe pq como vou ter que faltar algumas vezes, achei q ela precisava de estar a par do que se estava a passar.
A minha opinião é que devemos partilhar apenas com algumas pessoas que gostam de nós e que sabemos q podemos contar com elas pq há momentos em que precisamos desabafar.

Beijinhos

karrapetas disse...

Realmente este tema é transversal a todas nós que sofremos desta doença.
No início também contámos apenas aos pais e irmã (que foram fundamentais em todo o tratamento) mas depois fomos contando ao resto da família e amigos.
Na altura do tratamento só os pais e irmã souberam, para que todo o processo não fosse ainda mais difícil com pessoas a questionarem como tinha corrido e qual era o próximo passo.
É difícil contar, cada vez que tentava contar a alguém chorava sempre, estupidamente era um misto de vergonha com uma impotência da nossa parte em relação ao que estava para vir.
E sim algumas pessoas são muito insensíveis em relação a todo este problema e começam a dizer que a amiga tentou assim e foi ao médico assado e que se não stressarmos conseguimos, etc. têm sempre solução !
Tivemos algumas reacções destas... às vezes sentia que já não tinha paciência ou palavras para estas pessoas.
Infelizmente temos que ser mais fortes e continuar em frente.
Hoje sinto-me quase na obrigação de dizer ao mundo, que fiz um tratamento de infertilidade e que comigo correu tudo bem e explico a toda a gente que me pergunta tudo, tudo o que querem saber.
Só quero ajudar pessoas que sofrem desta doença tal como nós.
Mesmo em situações mais desconfortáveis, digo sempre, pode ser que alguém precise e consiga vir ter comigo, felizmente já aconteceu e sinto-me muito bem com isto!
Aprendi também a nunca mais perguntar a ninguém " Então e bebés?" pois sei bem o que custa ouvir isto!
T

Vidas Suspensas disse...

Olá! Tem piada que connosco aconteceu o mesmo, dois casais amigos agem como se não soubessem de nada e outro mostra-se disponível para ajudar sem no entanto nos sufocar. Era bom se pudéssemos "des-contar" não era?
Bjs

Vidas Suspensas disse...

Compreendo bem a sensação que descreves quando contavas a alguém. Apesar de nunca me ter acontecido chorar abertamente em frente da pessoa, fico sempre muito entalada, com aquele nó na garganta e o coração parece que bate a mil...
Claro que racionalmente sabemos que não há razões para isto, não foi algo que escolhessemos ou de que tenhamos que nos envergonhar, mas emocionalmente tudo é diferente...
Ainda bem que agora partilhas a ua história porque é inspiradora para quem ainda está a lutar!
Bjs!

Nosso Sonho disse...

Eu tb choro muitas vezes quando falo com as pessoas que sabem o que estamos a passar, provavelmente pela impotência que sentimos por não resolvermos este assunto!! De facto há pessoas para td! As reações são diversas, mas magoam-nos muito aquelas que vêm de pessoas que tu as tinhas num lugar bem especial no coraçao e que afinal estavas só enganada. Infelizmente aconteceu-me isso com o casal que eu tinha como da familia e que ingoraram completamente o nosso problema e mudaram de assunto qd tentavamos falar dos nossos medos...enfim so serviu para conhece-los melhor ;)

Beijinhos

Mabel Baby disse...

Ao princípio não contamos a ninguém, porque como vocês queríamos fazer essa surpresa, depois de alguns meses acabei por contar a uma colega e a duas amigas. Uma delas não mostrou muito interesse e nunca mais me perguntou nada, o que me magoa um pouco. 1 ano depois contei aos meus pais porque me sentia a rebentar de angústia e eles têm-nos apoiado imenso. Agora, embora não tome a iniciativa de contar, se me perguntarem conto o que se passa. Faz-me bem falar, mas como no nosso caso o problema principal está no meu marido, fico um puco constrangida, porque sei que ele não gosta que as pessoas saibam...
Uma coisa aprendi: é um bom assunto para testar a maturidade das pessoas!